Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas de João Pessoa
 
 
 
 
 
 
 

O ensino de Deus na Educação Espírita

        

A doutrina espírita é, essencialmente, uma proposta educativa! Mas a educação espírita não visa necessariamente educar para o espiritismo, seu objetivo é educar para a vida e sua imortalidade, onde os conhecimentos e concepções espíritas auxiliam na compreensão mais ampliada de mundo e do papel que cada um exerce no automelhoramento e no progresso da humanidade.

Alicerçada no paradigma da educação jesuítica, a educação espírita atual normalmente não ultrapassa as barreiras da “evangelização”, no sentido de catequização, adotando muitas vezes uma metodologia autoritária, massificadora e sem a preocupação com um processo pedagógico. Entretanto, a educação espírita deve estar voltada para uma visão diferente de processo pedagógico, onde o educando é percebido como agente atuante no processo educativo e, além disto, deve preocupar-se com o estudo da didática, interessando-se, desta forma, não apenas com os conteúdos, mas também pelo modo através do qual o ensino se processa.

Uma das maiores dificuldades, a meu ver, é justamente trabalhar, com os educandos (principalmente os de menor idade) temas abstratos como Deus. Nestes casos é muito mais fácil e cômodo simplesmente transmitir e fazer-se reproduzir os conceitos mais aceitos da divindade, além da inquestionável existência desta.

Neste sentido, ao findar alguns anos de estrada nas escolas de educação espírita os educandos certamente estarão aptos a reproduzir quase maquinalmente o conceito de Deus como inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas! Mas questiono se estes mesmos educandos são capazes de estabelecer uma interação dialética sobre a existência de uma divindade, se são capazes de dialogar com os que pensam diferente, não de maneira proselitista, mas com conhecimento de causa e com capacidade de construir um diálogo baseado em conhecimento construído, e não apenas decorado.

Como será que os educadores reagiriam em sala de aula caso um educando se mostrasse contrário à idéia de existência de uma divindade? Provavelmente com alguma repreensão, ou simplesmente como se o educando fosse um monstrinho que precisa ser catequizado, afinal, como se pode aceitar a não crença em Deus.

Não faço aqui nenhuma apologia ao ateísmo, mesmo porque a existência de Deus é um dos princípios básicos da doutrina. Mas faço um convite para o que o próprio Kardec sempre fez, que foi dialogar com o diferente, de maneira construtiva e científica, privilegiando o processo dialético de aquisição do conhecimento.

Ora, se um educando expressa a dificuldade de crer em Deus, que maravilha! Primeiro porque este está se sentindo com confiança suficiente de ser autêntico e de se expressar verdadeiramente. E, segundo, porque aí temos a possibilidade de dialogar com o diferente, e traçar com ele uma construção das diversas concepções e percepções do que seja a divindade.

Fazer com que os educandos construam um conceito, ou antes, uma forma de perceber e conceber a divindade, baseados nas suas experiências e bases culturais e ideológicas, além do diálogo com as diversas visões filosóficas existentes sobre o tema é um desafio à educação espírita! Mas um desafio que pode ser estimulante para ambos atores do processo educativo: educando e educador, proporcionando o crescimento de ambos.

Evocando Marx, Gramsci, Paulo Freire, Moacir Gadotti dentre outros, percebe-se que a pedagogia da práxis corrobora com as percepções mais atuais da pedagogia espírita e do processo adotado por Kardec. Entendendo-se aqui pedagogia da práxis como uma prática pedagógica que procura não esconder o conflito, a contradição, mas contrariamente, busca entendê-los como inerentes à existência humana, inspirando a dialética. Neste sentido, a práxis significa ação transformadora, onde o homem é considerado um ser criador, sujeito da história, que se transforma e assim transforma o mundo.

É neste sentido que a educação espírita deve caminhar! E mesmo em temas abstratos e ainda cheios de lacunas conceituais e filosóficas, como Deus, o processo educativo pode ser voltado para uma práxis, onde todos os conceitos construídos podem vir a auxiliar na construção da visão de mundo dos educandos, de como estes se relacionam com seu próximo ou com a divindade que há em cada indivíduo.

“Ensinar é uma forma que o professor ou educador possui de trazer evidências para o estudante sobre o que é conhecer, de forma que o estudante também venha a conhecer em vez de simplesmente aprender” (Paulo Freire).

AMELY MARTINS, Bióloga, Mestra em Farmácia, Educadora Espírita, Membro Fundadora da ASSEPE e Diretora do EmCena.